9.4.18

A PRESENÇA DO MISTÉRIO ONTEM EM SÃO BERNARDO


Eu não sei, foi a paixão. Foi épico. Foi tragédia diante dos olhos mesmo. Foi de bambear as pernas. De ficar tatuado. Não se esquecerá.

Ele se atomizou e implodiu a todos. Repito, a ele e a todos. A energia foi gigantesca. Imanência e emanência nuclear. E tudo vibrava mesmo, de tocar e dar choque. Energia nuclear. Eu não sou místico, mas alguma coisa muito mística, muito além do Lula, aconteceu em São Bernardo ontem.
Atravessou um trem no meio da cidade, que atravessou cada um ali. Uma locomotiva carregada de minério pra virar aço e carros no corpo de todos os presentes. Metalúrgica. E foi de verdade. Foi uma mistura de sentimentos, um bololô em ondas fortes, peitos batendo e vozes que não saíam das gargantas. Simplesmente não saíam. Era assim, foi assim.
Daí berros, berros cortantes e vigorosos, como de recém-nascidos. E, no fim, era ele quem estava, desde o início, ao mesmo tempo acalmando a turba e chamando pra luta, pra briga. Dali, daquele palco, iria pra cadeia, coisa de minutos. Um preso falando. Passei a entender por que algumas vozes não saíam mais, estavam presas já. Desceria a escada do caminhão, e, pêi, xilindró.
Era morte e vida. E era ali. Não tinha texto grego. Não tinha Homero, Shakespeare, Marlowe. Até pensei no Leon Hirszman e no Gianfrancesco Guarnieri encenando o drama das greves do ABC nos palcos e no cinema. Nada dava conta. Afora a política toda, algo muito maior estava sem qualquer máscara ou era encenação. Estava acontecendo uma verdade. Era a esposa sendo chorada pelo Padre Operário, a homilia pensada pelo irmão Gilberto Carvalho e ele, Lula, querendo uma música apenas, Asa Branca, canção do casal.
Do casal??? Um hino do Brasil dos Lulas. "Quando o Verde dos teus olhos se espalhar na plantação." Lembrei de meu pai, que destaca essa estrofe como das mais lindas e pensei na minha avó, baiana de Santa Rita de Cássia, que nos deixou há 2 anos. Lembrei também que tivemos um dia um ministro da Cultura que dizem que é um orixá, o Gilberto Gil. Quis cerveja. Achei.
Era ele indo pra cadeia. Eram os medíocres, eram os vermes fazendo isso. Era a mentira operando. Estávamos todos lá associados à escória. Eu, que nem batizado quando nasci fui, via a Cruz a Batina do Padre Operário e os berros de recém-nascidos das pessoas pedindo pra ele resistir, com olhar temente a Deus. Olhava pro Suplicy sendo atendido por médicos, pro Mercadante e o cenário paradoxal do apocalipse que fazia morrer e, ao mesmo tempo, nascer algo.
Acho que todos viraram Lula mesmo em São Bernardo ontem. Estamos todos indo pra cadeia, todos estamos nos sentindo mal, injustiçados. Empatia, entender o sofrimento do outro, simpatia, sofrer junto do outro. Missa-Culto-Comunhão. Mãos dadas.
Não existe parto sem dor, nem vida sem parto. Era dramático, como é um trabalho de parto. Sangue, placenta, berros e dor. Havia risco. Foi a fórceps!
Olhava pra sede, antes barracão. O Útero-sindicato estava lá. Dali nasceu algo. Dali nasceu muita coisa que foi inscrita na Constituição. Dali nasceu o EU do homem mais potente que este Brasil produziu. E ele, frágil e forte, correu pro ninho, pra debaixo da asa dos amigos, pro boteco onde bebia com os amigos. Somente da fonte sairia pra escuridão. E a polícia, os algozes carcomidos, os Pôncio-Moro, lá, babando, no cio.
Começo a olhar pro céu. Começo a achar que o Épico está lá mesmo. Questiono minha psicose. Questiono minha individualidade. Pergunto se estou dissociando. Deixo-me ir? É possível mesmo isso estar acontecendo, assim? Não seria um palco grego? Uma tourada? Quem escreveu esse enredo? Se eu pego, vai ter que apanhar. Juro vingança. Blasfemo. Retiro. Peço perdão. Começo a entender o processo de morte e vida ali. Começo a ver algum tempo e alguma transitoriedade neste lugar.
- Corte - Hoje, domingo, São Paulo.
Sigo descerebrado. "Domingo descobri que Deus é triste. É infinita a solidão de Deus sentado ao lado de....si". Um pai totêmico que se vai, deixando o trono vazio como um elevador quebrado hoje, no dia de domingo. É o Drummond, são vários cantores e a Mercedes Sosa cantando Valderrama desde cedo. E o Gonzaga, Assum Preto - pássaro na gaiola.
Uma cela em Curitiba e fogos por São Paulo.
Foguetório do desprezo.

A saudade antes trazia fogos, uma canção antiga lembra. Era assim que se comemorava quando alguém voltava em muitos lugares Brasil afora. "A barulheira que a saudade tinha", diziam. Agora é a barulheira do desamor. Foguetório do desprezo.
- Corte - Voltamos ao sábado, São Bernardo.
Mas sim, sim, houve transe ontem... Muitos desmaios. Após falar, dizer que viraria ideia, Lula vai carregado pelos recém-nascidos até o sindicato-útero, fazendo-se carne para o banquete dos filhos. Se faz alimento e deixa vago o trono. Tragédia absoluta! Lindo e horrível! Eu tremia, não conseguia foco para as fotos que tentei deste deleite antropófago. Me preocupei em me alimentar, vejo. Ainda bem.
Findo o banquete, um berro vem de dentro ao fecharem as portas do sindicato! -- MÉDICO! MÉDICO para o Presidente! Era um pico de pressão. Era o Mercadante desesperado. E foi um pico de pressão. Minha pernas não seguraram. Ajoelhei sem querer, minhas pernas bambearam mesmo. Uma mulher me ajudou a levantar. Ela estava fraca de lágrimas. Nos abraçamos muito órfãos. Somos Lula. Ele se deixou devorar.

Aldo Zaiden, psicanalista
08.04.2018

12.3.18

Ingeborg Bachmann



O tempo adiado

Vêm aí dias piores.
O tempo adiado até nova ordem
surge no horizonte.
Em breve deves atar os sapatos
e espantar os cães para os prados.
Pois as vísceras dos peixes
esfriaram no vento.
Débil arde a luz do lupinus.
Teu olhar abre trilhas na névoa:
o tempo adiado até nova ordem
surge no horizonte.

Do outro lado afunda tua amante, na areia,
ela sobe-lhe pelo cabelo esvoaçante,
ela corta-lhe a palavra,
ela ordena-lhe silêncio,
ela acha-a mortal
e entregue à despedida
depois de cada abraço.

Não olha para trás.
Ata teus sapatos.
Espanta os cães.
Joga os peixes ao mar.
Extingue o lupinus!

Vêm aí dias piores.

(trad. Claudia Cavalcanti, Die gestundete Zeit)

8.3.18

RIP Victor Heringer


Não sou poeta
Agora que os estalos da adolescência passaram
e a vida assenta como uma cômoda de mogno
agora que os joelhos estalam quando me levanto
sem mulher, sem filhos, mas com emprego estável
é preciso admitir que não sou poeta.
Embora o meu amor esteja solto no mundo
violento, semicego e ferido no ombro
não sou poeta.
Todos me felicitam. Que bom, dizem
vida de poeta é muito difícil.
Logo a gente chega a ser homem
e acaba com as coisas de menino.
A vida afunila.
Eu tinha dois, três truques nos bolsos
de calças compradas em shoppings.
Não soube nunca comprar como poeta
a longa espera por um par de sapatos
sentinela no deserto.
Os sapatos são fabricados e os pés dos poetas passam anos se deformando. Até que um dia cabem.
Por isso qualquer roupa parece velha
no corpo de um poeta.
Por isso estão sempre se desculpando
pelas roupas velhas.
Mas em segredo se orgulham.
Embora eu tenha um corpo
que pode ser confundido com o corpo de um poeta
não sou poeta.
Tenho as pernas fortes e os braços magros.
O torso amolecido dos boxeadores
os órgãos de dentro estropiados.
Mas quem me vê nu instintivamente sabe que não sou poeta.
Não levantei a mão esquerda em golpe de dançarina de flamenco ao ler Jaime Gil de Biedma para os meus amigos,
embora tudo tenha conspirado para isso.
Para que se me entranhassem as coisas.
Concluo que não sou poeta.
Tenho os dedos frios de um técnico em informática
e sou triste como um técnico em informática
mas não sou tão triste quanto um barbeiro.
Eu li todos os tratados da métrica portuguesa.
Assinei dois contratos como poeta
que doravante já não têm validade.
Assinarei um terceiro, como última traição.
Serei perdoado por todos.
Doravante vão reinar o olho e a raiva.
As melhores botas para caminhar na areia
os cálculos de longas distâncias
os treinamentos de apneia.
O amor virá até mim como vai aos jornalistas e CEOs, aos sushimen de São Paulo (SP) que vieram do Ceará – ideais porque têm mãos quentes.

As partes elegem o Foro da comarca de São Paulo (SP), renunciando a qualquer outro, por mais privilegiado que possa ser, para dirimir todas as questões surgidas quanto à interpretação ou execução deste contrato que não puderem ser resolvidas amistosamente.

27.2.18

Golgona Anghel




Porque falta meia hora antes de 
tomar o comprimido para dormir,
porque mesmo depois de tanto tempo
fazes de mim o filho com síndroma de Down
de Arthur Miller,
porque escrever não é só abrir cabeças
com o bisturi de Lacan,
e porque um poema não é a Isabella Rossellini
a chorar todos os sábados à noite,
nem o casal encontrado abraçado
na paralisia bucal do Vesúvio.
Porque a poesia não é a ponte Mirabeau
num cartaz de néon de adolescência,
porque hoje, quando ligaste,
era apenas porque te tinhas enganado no número,
porque estou cansado, voilá,
e não consigo evitar a noite,
penso agora em ti, Juliana,
heroína no sentido naturalista do termo,
penso sobretudo no teu arzinho
de provocação e de ataque.


Podias ter sido a Maria Eduarda
do cinema norte-americano,
a rapariga que ajudou a pôr fim à guerra no Vietname,
a Frida Kahlo e o Kofi Annan,
a estátua de Notre Dame.

O teu sentido reformista,
o teu olhar de Eça socialista,
cá está,
tinhas cabeça para embaixadora da boa vontade,
pés para andar nos corredores da ONU,
o feitio da botina, a mania, a despesa.

Mas continuas a dormir no teu cacifo húmido,
de cara para a parede
enquanto 20 repúblicas foram perpetuando
campanhas eleitorais e golpes de estado
nos jornais com os quais limpas os vidros da cozinha.


Coitada, coitadinha, coitadíssima,
permaneces na sala, um pouco pálida e fraca,
mas restituída aos deveres domésticos
e aos prazeres da sociedade!

O feitio da botina, a mania, a despesa,
o cheiro a terebintina.
Ó Juliana Couceiro Tavira, per omnia saecula,
chega para cá a garrafa e o cinzeiro;
temos assuntos por tratar e meia hora de critérios.




20.2.18

Ben Lerner 10:04




Pré-venda, lançamento em 07/03
Tradução de Maira Parula 
272 páginas

"Segundo romance do autor do aclamado Estação Atocha, 10:04 alçou definitivamente o nome de Ben Lerner ao olimpo da ficção literária contemporânea. No livro, que possui boas doses de autoficção e metalinguagem, o narrador, Ben, vive numa Nova York turbulenta, ameaçada por terremotos, furacões e convulsões sociais. Neste cenário um tanto desolador, Ben é diagnosticado com uma síndrome cardíaca potencialmente fatal, ao mesmo tempo que recebe um gordo adiantamento por um livro que ainda não escreveu e uma proposta de conceber um filho com sua melhor amiga. Enquanto reflete sobre a iminente extinção da cidade, a angústia de uma paternidade não programada e os desafios de escrever em tempos tão instáveis, o narrador constrói um romance dentro do romance, em que vislumbra, com uma prosa poética, intimista e bem-humorada, os múltiplos futuros que podemos habitar e as conexões que ainda precisamos formar."